Sentimentos Cotidianos

Rendição

Ler Laila Guedes, pra mim, sempre foi além da teoria. Não me encaixo em nenhum estilo literário. Às vezes erro na ortografia, peco na concordância, e abuso das metáforas. Assim, pode-se dizer que meus textos não se tratam de literatura, mas de puro sentimento. Dizem que sou poeta, escritora, dizem tantas coisas que eu não sou. Mas não me incomodo, não mais, diante das interpretações difusas. Nem eu mesma sei quem sou, completamente. Essas páginas internas tão complicadas de ler, que tantas vezes confundi.

Deparo-me constantemente com críticas e julgamentos aos meus escritos como se eu fosse um livro empoeirado na estante. Não sei dizer bem o porque, mas, sempre vem alguém tentando me arrancar e catalogar em qualquer um desses estilos. Me perdoe, não me encaixo nesse contexto asséptico e perfeito. Mas continuo a escrever por ser fiel a minha natureza. Não forço coisa alguma, apenas escrevo naturalmente, sob a condição do que me foi doado. Não que seja uma verdade absoluta. Até porque, muitas vezes sou um livro sem páginas. Meu eu lúdico revela um amor que passa bem longe do desejo carnal. O amor que escrevo não é esse amor que anda por aí, ele está em mim. Das vezes que consigo colocar em palavras o meu sentimento, talvez poucos compreendam, não cabe ao entendimento de todos. Talvez, eu veja coisas que você não consegue ver. E, sinto além de mim. Sinto o que diz um olhar, até mesmo o meu olhar para mim.

São poucos e raros, os seres que consegue mergulhar na minha essência. Outros tão perdidos nas regras dos significados, cegos pelas associações lógicas, que esquecem que sou tão humana quanto eles. A qualidade das minhas palavras é pra quem sabe sentir e não busca compreender. As pessoas não sabem sobre a minha timidez, pois aprendi a disfarça-la tão bem. Sou muito mais comum e simplória, retraída – quando não me encaixo em um mundo distante do meu. Mas pensando bem, talvez eu tenha me manifestado dessa forma simpática, adulta e cheia de firmeza – pra tentar sobreviver nesse mundo inóspito.

Depois dos tapas que a vida me deu, aprendi a escrever cada vez mais. Não, as minhas palavras não tem mais medo de serem julgadas, mal-entendidas, submetidas a alguma avaliação. Elas são sinceras e verdadeiras, mas não tem tradução, nem estilo, nem explicação. Quando escrevo, eu me rendo inteiramente, completamente entregue ao que me torna humana. Sem dependências, sem expectativas, sem medos, sem se encobrir de vitimização aguda. Minhas palavras buscam o que todos queremos no amor, independente de crença, cor ou religião: a rendição – todos os dias. É muito mais poético se render a esse amor bobo e ridículo, do que viver eternamente sóbrios.

* Pra ficar ainda melhor escute a canção “Surrender”.