Sentimentos Cotidianos

Mariposa

A menina tinha uma folha verde escura nas costas e sorria timidamente fitando o chão que pisava. O mesmo chão que fitava o céu nebuloso. As nuvens carregadas e negras já tomavam o céu inteiramente, de modo que não se via nem mesmo um fio do azul. Não tinha cor, além do branco acinzentado e os diversos tons de preto. O dia estava fechado, não sorria, dava pra sentir a tristeza ao olhá-lo assim. E, estava prestes a chorar. O céu já gritava através dos trovões entre os clarões fortes dos raios que cegava quem corajosamente olhava ao alto. Não demorou muito e a chuva forte veio. Fazia tanto barulho. Chuvas e trovões, os relampejantes raios riscavam poesias no céu.

Mariposa. Foto: Laila Guedes

Com o terço de madeira escura na mão e uma prece em latim, a menina tremia, não dava pra saber se de frio ou de medo, ou os dois. Um pingo escorre sobre a cruz até atingir os dedos dos pés descalços. Agora chove, e chove cada vez mais forte. Não há abrigo, ela corre livremente pelo campo. A chuva não cessa um só segundo. As gotas fortes fazem um barulho ainda maior ao tocar as costas daquela menina. O que a fez lembrar do dilúvio responsável por carregar parte da natureza nas costas. Foi um vendaval que cravou aquela folha verde, ao encontrar suas costas molhadas, ficou tanto tempo que já fazia parte de sua pele. Mas naquele dia, com a chuva forte a folha se desprendeu e caiu sobre o solo que caminhava. Dava pra sentir o cheiro de terra molhada. Ainda fria e fofa e úmida pela chuva recente. Dizem que naquela noite, a folha caída no chão ganhou forma de uma mariposa e alçou vôo. Alto no céu, colorida e iluminada, de tão longe que não se dava pra ver mais.

As lutas que travamos com as pessoas que amamos são terríveis. Faz chorar tempestades que podem durar uma eternidade. O dar e tirar vidas por uma causa. Trair alguém que ama enegrece a sua alma. É um peso que carrega nas costas por todos os dias. A menina ganhou tudo naquele descampado dia chuvoso. Quando a folha caiu e renasceu mariposa, os pássaros cantaram a melodia do seu voo. Entre as nuvens no céu, dava pra ver de ponta a ponta, o grande arco colorido. Todas as manhãs, a menina, agora mulher, acordava e da varanda ficava um tempo avistando o céu sem pensar em nada. E, sempre vem a recordação do seu renascimento. Depois da tempestade, o arco-íris foi desaparecendo a medida que o céu foi se abrindo.

O mau, assim como o bem, não é uma condição inerente ao ser humano, é uma escolha. Não nascemos bons ou ruins, nascemos puros na condição da escolha. Todos temos o poder de escolher o que iremos nos tornar. Os bons semeiam tudo que floresce e desabrocha bondade, amorosidade e confiança. Nas suas narinas flutuam um sopro fresco de alívio consciente. Ao contrário dos maus que nada semeiam. Eles são apressados e não tem tempo para tal coisa. São diretos e objetivos. Sabem o que querem e quem exatamente querem ferir. Com o punhal das trevas cravejado no peito se arrastam sangrando uma escuridão de mágoas. A mentira vive constantemente nos lábios pronta pra causar discórdia e confusão. O mau não é fiel e nem leal a si próprio. Não sabe o que é o amor, a luz, a paz. Talvez, nunca tenha visto o que é a beleza do nascer do dia florido. Mas, os pássaros sempre cantam uma canção de vôo.

* Pra ficar ainda melhor escute a canção “Ordinary Human”.