Sentimentos Cotidianos

Abismo Hipnótico

Sou de longas encaradas, de olhar fixo que seca a alma. Encaro de frente sem desviar o olhar, deixando um forte rastro de mistério no ar. Tenho esse vício de olhar devorador e não costumo pedir licença, já vou entrando intensamente e violentamente feroz. Toda vez que as pupilas dilatam formando um abismo hipnótico, vem aquela sensação de uma alma mergulhando na outra.

Barra OLHAR

O olhar não chora, transborda. O olhar cria vida, imagina, mapeia, deixa registrado. O olhar que cerca, prende, enlaça, deixa marcas e saudades. O meu olhar tem mania de te procurar, sempre vai de encontro ao seu, espera, acolhe, amansa. O olhar tem mãos afetuosas que constrói e une destinos, aperta laços e promove encontro de olhares. Às vezes chega de mansinho, sem perceber, traz calma, acalenta, pousa nos olhos dos outros e faz território privado. Outras vezes causa incomodo, intimida, fere e faz doer, um estrago devastador.

Mas um olhar, acima de tudo, tem a capacidade de perceber e distinguir quem merece seu carinho mais sincero, suas gargalhadas despojadas, sua tímida proteção. Se doa e se desmancha no dengo do amor. O olhar também deseja, devora, se alimenta. Há olhares que não tem limites, não tem controle, não tem vergonha, é desbocado, desajuizado, inquieto e inquietante, um atentado ao pudor alheio.

Inesquecível são aqueles olhos que se esbarram nos seus, e te prende de tal forma, desejando, possuindo, devorando. Um olhar que vê coisas indescritíveis, coisas maiores, um infinito profundo. Quero tropeçar e mergulhar no banho nesse olhar escuro e misterioso. Sem medo da instabilidade das correntezas profundas. Um olhar assim, visto ao olho nu, sem retoques e com todas as imperfeições.

O olhar pode ser como for, o seu meio tímido e o meu debochado, mas quando a gente se olha vira poesia. Quando a gente se funde, há somente um olhar que segue na mesma direção desse nosso abismo hipnótico.

* Pra ficar ainda melhor escute a canção “One